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"O gênio e a natureza fizeram uma aliança eterna: o que o primeiro promete, a segunda certamente realiza".
(Friedrich von Schiller)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O frio III

Cem homens até conseguem
Erguer um acampamento,
Mas haja uma mulher
Para que qualquer lugar possa ser um lar...

E meu lar, pensando assim,
Aos poucos, deixa de ser lar.
Coração, dizendo sim,
Sabe que o meu lar já se tornou qualquer lugar.

Pensando bem,
Sem ti, nunca foi lar...

Roupas encharcadas de brinquedos;
Regras insolúveis aos espelhos...

Não quero aprender a ter saudade,
Pois, quando for para fazê-lo, eu não mais precisarei:
Contigo, fico vivo. Contigo, casarei.

Cobertores são inúteis,
Pois impedem ventos fúteis.
O que importa realmente é inevitável —
É o frio que faz e bate
Às juntas deste besouro indomável.

Ditadura

Uma pessoa no inferno,
Outra pessoa no céu;
Um cidadão de chinelo,
Oposto à noiva de véu.

Religiosos que se passam por ateus
E vice-versa.
Criminosos que criam o seu Deus
Além da espera.

Uma pessoa no inferno —
A mesma pessoa do céu.
Várias facetas que prezo —
Abelhas que trazem meu mel.

Nem toda ditadura é 100% ditatorial.
Nem toda boa conversa é por domínio territorial...

Sorte ou azar...
Você brincou com sorte, com azar.
Sete caras que me deram a coroa,
Que reluz em minha mente, no meu jeito de pensar.

Não quero perceber que fui traído
(Então me conte).
Faça os seus versos bem, comigo
(E os remonte).

Contudo e sobretudo,
Saiba que eu a amo mais que tudo.

O frio II

Mais um dia que acaba bom
Por eu ter visto minha doce dama.
Mais um livro que se fecha, leve,
Quando me deito exausto em minha fria cama.

Enquanto uns habitam nuvens sem ao menos terem voado,
Há as nuvens que esquecem como haviam trovejado.

Mercados cheios, vidas tão vazias.
Um só carteiro que procura uma palmilha.
Países que “batalham” por justiça
São quadrilhas que nos roubam à luz do dia.

Contudo, eu sigo em frente
Sem olhar a um só lado
A fim de me perder em acidentes
Que combinam com o Lá do meu teclado —
Reluzente, tão somente, em tom brilhante;
Tão oposto à luz vermelha dos flagrantes.

Idiomas que se perdem entre o nosso;
Amazonas que se perdem no que é nosso...
Lugares que não levam a lugar nenhum;
Coisas que se perdem se haver motivo algum.

Mais um dia que acaba bom;
Que exige que eu use um edredom
Visto que tua ausência contamina minha sede
Da conjunta iminência que procede
Em prol do frio que, pela noite, contagia —
Pela noite em equilíbrio do pós-dia...

Falta ou saudade?
Talvez nenhum dos dois.
Pois quando se vive sem sentir a outra metade,
Em saber que está longe e só se chega bem depois,
É difícil ficar vivo...
É difícil ter abrigo...

Eu só quero ter mais tempo pra dizer que eu te amo;
Eu só quero dar um tempo a esse tempo tão gritante.
E, mesmo que precise dar um sopro ao berrante,
Quero sempre que tu saibas que, por tua vida, eu chamo.

Apartheid II

Um time que tem onze atacantes,
Em que nenhum deles sabe ser um centroavante.
Máquinas de guerra no lugar das de escrever,
Mortes irrequietas insistentes em dizer
O que fazer pra se manter;
O que manter para viver.

Redações que não se apegam a seus temas
+ Canções que não se apegam aos fonemas
Sob um mundo regulado por problemas valvulados
Sobre erros ministrados pelo mundo regulado.

Permanecer sobre esse muro é uma escolha
Necessária desde a era “Guaraná-com-Rolha”,
Explanada por um livro que, sem folhas,
(Que soube mais que um só livro de cem folhas;)
Ensinou a poesia de cem folhas;
Chamada vida com desejo de vingança,
Estarrecida pela falta de união.

Sobrevivo à nossa pira de matanças
Sendo errado sem deixar de ter razão.

A Guerra Santa é menos grave que uma dança
Coreografada por quem mata por matança;
Coreografada por quem perde a esperança;
Protagonizada por quem cede a liderança.

Por que não nos ensinam a vencer?
Por que nos incentivam a sofrer
Em vez de nossos dons, com muito esmero, compartirmos
A quebrarmos nossas pontes que ligavam ao destino?

O tabuleiro já deixou de ser xadrez;
Damas corrompidas, transformadas em turnês...
O piano já perdeu seus acidentes
E, com teclas desiguais, está ganhando muitos dentes.

Um time sem goleiro é como a zaga sem zagueiro.
Um ríspido guerreiro é um fumante sem isqueiro.

Sem desigualdade, que juntemos as metades
Da laranja tão mecânica — a máquina das artes —
Sem ter posições — decorações —, num carrossel,
Vimos, nesse instante, ao “plus” da chuva que, do céu,
Mostra que um time só precisa de um esquema
E que tudo nessa vida pode, em si, virar poema.

Nossos momentos

Vamos já valorizar nossos momentos,
Pois, a cada micro-instante que se passa nas estradas,
É brochura de caderno que anuncia sofrimento
De viver para morrer sem deixar uma só carta.

Como deve ser morrer sem dar adeus?
Como deve ser a fé do nosso solo ateu?
Dúvidas eternas de uma mente tão sincera
Que se apaga noite afora sem apegos a promessas.

“Promessa é dívida”...
Aprendi — era uma vez — que é papel de vigarista
Que não paga por desprezo, até mesmo à fantasia.
Promessas sempre são feitas pelo forte devedor
Que destrói a todo o mundo e recorre ao seu Senhor...
(Adianta?)

Velhos frutos, contrabando,
Vêm armados com tamancos
E com saias das mulheres encharcadas de “idéias”
Cuja força feita às pernas dão inveja a centopéias.

Vamos já valorizar nossos momentos,
Pois a estrada, de repente, pode ter seu fim.
Com isso, nós perdemos movimentos.

Juntos dela, que driblemos nosso fim.

Apartheid I

Talvez eu seja "hippie" e creia em música holandesa,
Por mais que seja esfinge a essa Pátria natureza
Nesse mundo que não gira, em que pagamos pra pagar.
Nessa "terra das palmeiras",
"Onde canta o sabiá"¹,
Há domínio e estranheza,
Ninguém chega a algum lugar.

O metrô é um velho exemplo desta nova decadência:
Deixamos que exista os bancos preferenciais
Em troca da preguiça de não ter pela presença
Dos iguais ao nosso lado — dos iguais tão desiguais.

Por que não educar o bravo povo reprovado?
Por que não preferimos a nação a um Estado?
Qual será o sentido de bradar por "Pátria livre"
Se a frequência desse sonho, com frequência, não existe?

[Memórias de um jovem
(Memórias tão remotas...
Que não são decerto póstumas...)
Memórias de quem não tem memória;
Memórias de quem quer virar memória;
Memórias de quem quer pintar a história:]

A Guerra Santa é menos grave que uma dança
Protagonizada por quem mata esperanças,
Coreografada por quem nunca vê ninguém;
Coreografada por quem nunca amou ninguém.

O "Apartheid" começou num banco cinza de metrô
Que não vê utilidade no espelho retrovisor.
Segregamos semeando egoísmo;
Democratizamos ocultando o lirismo.

Vestimos este bom sapato
E compramos mais cigarro
Tão felizes por bom grado
E por sermos tão otários...

"Apartheid" que reparte as metades desiguais;
"Apartheid" que renasce em nossos velhos tribunais.
Há quem o critique nas tevês e nos jornais,
Desmentindo seus segredos de vender comerciais.

(Saber e criticar não chega perto
De fazer, colaborar, de peito aberto!)

Velhas novidades de quem preza as cidades
Mórbidas, inóspitas, doutoras da verdade.
Onde estão as valsas e os defeitos?
Onde estão as rosas e os erros
De nossa velha língua portuguesa?

O tabuleiro já deixou de ser xadrez;
Damas corrompidas, transformadas em turnês...
O piano já perdeu seus acidentes
E, com teclas desiguais, está ganhando muitos dentes.

O piano já perdeu seus acidentes:
Tonalidade descoberta, desonesta, que dá Dó...
A ternura já sofreu seu acidente
E cavalga solitária, sem que veja a luz do Sol...


NOTA:
1. "Canção do Exílio". Gonçalves Dias.

Seleção

Seleções brasileira e de emprego,
Empregos ostracistas, passageiros.
Há eternos, indiscretos;
Há discretos como insetos
Que demonstram pela sombra sua grandeza
De sentidos pluriformes — correntezas...

Meu amor ficou em casa, esperando boas novas
Que não sejam só boatos, que produzam boas notas
Rompedoras do silêncio indeciso — solidão
Sucessora do desprezo, provedora da emoção.

Agora que eu te tenho,
Eu te digo: tu me tens.
À tua súplica, eu venho
À esperança que me tem.

Longe, aqui, te sinto,
Como é sádico o destino...

Insistente em separar alguém que ama
Do amor de sua vida à semana
Crucial, fundamental,
Amarradora de projetos.
Mas eu sei que penso em ti.
E, pelo teu amor sincero,
Trabalho arduamente sem ter medo de errar.
Contra ríspidas correntes, vamos juntos nos levar.

Seleção de emprego(,) de fachada,
Seleção de prédios e escadas;
Seleção de futebol,
Seleção de celular...
Solidão do meu lençol
Que te espera em meu lar.

Pra quem acha que o mundo não tem + jeito

Pra quem acha que o mundo não tem mais jeito,
Abrirei meu coração a revelar alguns segredos
Que garotas não colocam nos diários
E que a gente nunca guarda no armário.

Há problemas que precisam de um só número,
Há poemas que só querem uma letra,
Há transtornos que só pedem o intuito
De jogarmos num só time, hasteando a bandeira
Que nasce com um rasgo de garganta
Detentora do silêncio e da nossa implicância.

Pra quem pensa que o mundo não tem mais jeito,
Basta carregar um grande amor dentro do peito;
Alegrar-se pela chuva de "bubuias" d'uma "stória"
Descoberta pelo tempo que não é mais só memória.

"Viajando a trinta mil quilômetros por segundo"¹...
Fálicas ternuras estridentes ao sussurro
De quem acha que, de fora, é capaz de ver o mundo
E mudá-lo pr'o melhor da nossa Terra do escuro.

Deixemos que a mente obedeça,
Deixemos que a bondade prevaleça,
Deixemos que o coração reveja
Os conceitos de ternura, de relance, de certeza.

Deixemos que a mente não se esqueça
Deste Blues que de poema já foi letra
E, hoje pela música, vem junto da certeza

De que o amor faz deste alguém um bom profeta
De anúncios de revista, pisca-alerta
Sugestivo de uma porta entreaberta
Que demonstra nosso sonho de outras eras.

Mas, pra quem acha que o mundo não tem mais jeito,
O amor nos leva à vida,
Que retorna, por sua vez, ao nobre amor.
As lágrimas e vozes incontidas
Nos ensinam seus desenhos de esplendor.


NOTA:
1. Música "Cavaleiro Lancelot". Banda "Pão com Manteiga". 1976

Magnetismo

Talvez o divórcio doa menos do que eu sinto
Por ser tão corroído ao vir de cada despedida
Que eu valso tristemente em meu caminho
Demolido pelo tempo que te leva à tua vida.

As leis da física ensinamo o que ganho
Com teu toque, teu sorriso — toda a fonte destas rimas.
Quanto aos muros que se erguem para unir o nosso espanto,
Não são fortes o bastante para deterem a alegria
Que eu sinto ao te ter;
Que eu quero ao te querer...

Quedas roxa e fome azul nos permitiram
Refletir por quê amamos e ter tempo para sorrir
Defronte a leva de problemas que, de fato, existiram
A beirar toda a saudade que eu tento reprimir.

Magnânimo romance que demonstra que eu amo
Longe desses magnatas que desdobram todo o ano.
Entre as redes eu me ergo feito o teu magnetismo
Que nos faz tão permanentes entre árvores e circos.

Sinos de concreto, cantigas de algodão:
Ou mentira sincera em que renasce o coração.
Chegas sempre como eu retorno sempre a ti
Por toda a vida que se estende em prol de sempre ver florir.

O besouro e a borboleta

Oito maravilhas, sete anos de azar;
Nove consciências, oito ventos — uma chance pra tentar,
Do sândalo, domar uma maré,
Do pântano, querer um jacaré
Que nos treine, que nos ache neste híbrido embarque,
Nesse tempo relativo, tão difícil de aceitar.

Sangue de auforria, mar de sangue que se monta.
Nove autorias — com teus olhos, me dou conta
De que a fé move montanhas e nos mostra a esperança.
Um verme, às entranhas do leão, faz a sua dança.
Eu te amo mais que tudo, mais que a mim, mais que à verdade,
Mais que à chance deste sonho, tão difícil de encontrar.

As melhores pessoas do mundo
Estão do seu lado
E as asas que levantam borboletas
Nos protegem dos estragos.
Como mágicos besouros,
Nós voamos contra a natureza,
Mergulhamos e peitamos a certeza
De jamais sermos tratados como iguais.

Sangue de auforria, mar de sangue que se monta.
Nove autorias — com teus olhos, me dou conta
De que a fé move montanhas e nos mostra a esperança.
Um verme, às entranhas do leão, faz a sua dança.
Eu te amo mais que tudo, mais que a mim, mais que à verdade,
Mais que à chance deste sonho, tão difícil de encontrar.

Sou uma lagarta
E você, meu par de asas
Que me leva ao horizonte, ao infinito, ao surreal.

Meu casulo é o passado,
Tão alegre com suas mágoas,
Que eu não volto mais atrás —
Eu não quero nunca mais.

A tudo, contrario.
Assim, dessarte, nosso amor o faz.
Sou besouro em voo ágil, digo não a qualquer deus
Que me projete a não voar.

As melhores pessoas do mundo
Estão do seu lado
E as asas que levantam borboletas
Nos protegem dos estragos.
Como mágicos besouros,
Nós voamos contra a natureza,
Mergulhamos e peitamos a certeza
De jamais sermos tratados como iguais.