Seja bem-vindo!

"O gênio e a natureza fizeram uma aliança eterna: o que o primeiro promete, a segunda certamente realiza".
(Friedrich von Schiller)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Café-com-leite

[Um pedido de paciência...]

Ganhei uma só trégua da bebida tão cheirosa.
Caí de para-quedas, fui expulso de sua mora
E do leite com café não mais restou uma opção
Ainda bem que fui tratado pelo som do chimarrão.

Quando se organiza uma casa, os avessos dão-se aos lados
De quaisquer que sejam temas — sejam réguas ou compassos —,
De qualquer que seja o ângulo formado pelo esquadro,
De qualquer que seja o curso que o amor tem ministrado.

Assim surge uma família — tudo errado e ao contrário —,
E assim vinga a rebeldia (:) do prazer de ser otário
Por morar em nosso ar e dar, ao sonho, a porta aberta,
Por morar entre as paredes de um alguém que me detesta.

Quer ser café-com-leite nesse jogo enlouquecido de formar família.
Quero ter braços direitos nesse raio estarrecido de usar mangas compridas.

Chega!
'Tô de saco cheio!
Eu deveria ter nascido sabendo?
Não é correto que esteja aprendendo?

É errado que eu seja egoísta
Se, por esse dom, percebo e dou calor à nossa pista
De asfalto enregelado de ternuras tão concretas
Por janelas descobertas pelas portas entreabertas?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Evoluir I

Entre refúgios e pedidos de desculpas,
Há trajetos, objetos, que a mente nunca estuda
Além dos atalhos, "além dos outdoors",
Além do que é dito tão somente pela voz.

Eu trago o meu jornal para o trabalho,
Mas não posso ainda ler o que, no mundo, há de errado.

Escolas de samba,
Andar na corda bamba,
Mentir com as verdades,
Correr pra ser metade.

Baterias de uma filha
Nos desenhos e nas linhas
Dos cadernos confidentes
(,)
Do chocalho da serpente.

O processo de recuperação dos créditos perdidos...
Algo mais que matemático, além de uma cobrança.
Quebrei.
Fiquei inadimplente nesse jogo do amor.

O progresso da contínua imigração dos hábitos sortidos
Que eu uso pra verter à luz de nossas esperanças.
Chorei.
Não existe "codinome", nem que seja "beija-flor"...

E já volta a saudade
Do sabor de ser metade.

Via Láctea

Cobrança realçada de valores ancestrais
Ocultos às palavras de amores desiguais.
Por que que o falar ficou tão fácil?
Mais fácil que o saber
Ignorante ao perceber.

Cobrança realçada por valores ancestrais,
Pela chuva de uma cinza de cigarro
Que comporta mais pessoas que meu carro
De promessas indiretas — todas éticas, morais.

Referente a telefones de contato,
Há tristeza em meus dias quando não são do teu lado.
Contigo, avançarei —
Panta rei —
Oásis no deserto;
Via Láctea em meio ao inferno...

Percorremos novos campos de um deserto mais que velho,
Nos perdemos às imagens de Universos paralelos.

Cão sacrificado

Sociedade que sustenta o consumismo
E nos marca, à flor da pele, os arrepios
Da injustiça averiguada, atualizada do passado
Dos heróis que não existem e fomentam nossos fatos.

É claro que a história vai além do que é memória —
É função que me enrijece à solidão da "micro-stória".
Solidão de nossa dupla, "braço forte"¹, General.
Escuridão da noite acesa à expressão do temporal.

Eu quero que alguém me relacione ao mundo inteiro
E aproveite, de lambuja, pra deter meu pesadelo
De que tudo que se ergue se transforma em espécie
Em tudo aquilo que carece de mudanças ou estepes.

Um pobre cão ataca alguém.
Mata.
Seus olhos perseguindo a ameaça de uma espada.
Seu dono é o culpado —
Dá risada
Por não ser jamais punido,
Por não ter junto ao porão.

E a culpa sempre cai no menos forte,
Pois a força se confunde com desordem, malandragem.
E o eco do disparo fere o forte,
Pois o forte de verdade não se cresce em reportagens.

Até quando esse País se valerá do seu destino?
Até quando aqueles olhos seguirão sendo punidos?

O cão que sente falta do carinho, do afeto.
Que aprende a matar, a atacar um vento cego...
O cão que sente falta de amor, de proteção
Pode ser ferido pelas balas. O seu corpo pode ir ao chão.

Pútrido, hipocentro recanchista!
(E é preciso que o epicentro se coloque às prontidões...)
Não é a pena-de-morte 100% proibida?
Qual a diferença entre o homem e o cão?
A diferença está no fato de não termos coração...

In memorian
A todos os fiéis companheiros
Corrompidos pelo exagero
Desses "donos" que têm medo do espelho.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Falta de ar 6815

O mendigo passa em frente ao "Shopping Center"
O povo acha isso tão normal, tranquilamente.
Fama, lixo e poder
Nos ensinam os valores que jamais queremos ter...

Estou preso, mãos atadas, por minha falta de ar
Que me impede de ter sonhos, que me impede de gritar.
Outro mendigo caça luxo numa esquina
E mais um cara se assusta com uma menina
Que pergunta pra ele as horas;
Diz que não sabe e vai embora.

Chave e fechadura que não param de girar
E me deixam vulnerável ao brindar e ao falar.

Muitos carros se parecem com o da minha sogra...
Por quanto tempo ainda serei alvo de chacota
Dependendo de um camelo pra me locomover,
Dependendo da voltagem pra chegar até você.

Ninguém nunca será igual a alguém
Numa terra em que a destreza fica aquém...

Passei pelos lugares onde estive com você
E nenhum deles me indica onde é que eu te encontro,
Pois a mundos diferentes, campo neutro não existe
Como a dor — minha saudade — que da sua voz consiste.

Ninguém nunca será igual a alguém
Numa terra em que a destreza fica aquém...

O frio VI

a.
'Tá tão calor no mundo todo...
Pelo sabor dos desaforos
Afagados pelas mágoas e angústias
Provedoras de uma busca absurda.

Absurdamente sem sentido...
Absurdamente "sem noção"...

Mas o frio ainda aquece a saudade
Que impera sobre as cores da cidade
Resultante, relutante em não ter cor,
Salpicada em temperos sem sabor.

Daqui de onde estou, escuto a música em tambores.
Onde quer que eu esteja, superou seus dissabores.
E, pra ser muito sincero, já não sei aonde irá
A batida em tom honesto de jamais voltar atrás.

Calor de só quarenta graus.
Por que só eu não sinto?
Estou perdido em maus lençóis,
Cadê o amor de que preciso?

Ela vem ao meu encontro,
Em tom romântico, galante...
Ela retira os meus assombros
Com seu sorriso radiante.

E eu espero em meus romances
Pelo mais perfeito instante...


b.
Hoje passei fome num contexto literal
(Chorei feito criança sem vestígio teatral),
Pedi por uns trocados pelas ruas da cidade
Que se forma pelo bairro que retém minha saudade.

Talvez eu seja estranho e tenha um quê de "kamikaze",
Talvez um simples vento fornecesse liberdade
Desde que pudesse ser soprado pela boca
Da mulher de minha vida, que me deixa sem escolhas.

Escolho nunca ter de escolher.
Escondo-me às trincheiras do viver.
De meu carinho, planto e vivo; dou adeus ao meu castigo.
Aos importantes empecilhos que nos cercam, damos visto

Pra que partam nús em direção ao Sol...
Pra que tragam luz à escuridão do meu lençol.

Em meio à fome, me senti pedir esmola
E deram mãos sem mão beijada
Ao plano índigo da estrada.

Construção que me servira de escola
E dera força à brigada
Contra o incêndio das palavras.


NOTA
(E um saco de pipoca doce satisfez a minha fome...)

Inspiração

Pela manhã, ao ouvir minha mais nova canção,
Mamãe arquitetara dificílima questão:
"De onde vem tamanha inspiração?"
"De onde vem tanta ideia?"

Vem do que é desimportante,
Dos detalhes,
Do que nos passa por batido
Daquilo a que ninguém dá atenção...

Por vezes, de loucuras ou asneiras;
Por vezes, da chatice corriqueira.
Mas o fato é que eu falo do meu muro vulnerável,
Seja ele uma asa-delta, uma cama, um metrô...

Faço-me valer por engenheiro,
Finjo que me sinto estrangeiro;
Agarro-me ao gosto indelegável
De passar por muito frio sem recorrer ao cobertor.

(Decerto, o cobertor também ajuda,
Quando nunca se tem algo a fazer...)

A inspiração pertence à respiração;
Pertence ao sangue que corre às veias que não pertencem a mim.
Revolta iniciada à justiça injustiçada;
Acordes planejados aos degraus de uma escada...

Se eu pudesse, enfim, dizer o que me inspira a escrever,
Eu diria que é a vontade de se autotraduzir,
Por mais que seja errado, por mais que nunca dê.
Há muitas das lembranças que tento reproduzir.

(Decerto, o passado me ajuda,
Mas é sede de futuro que me leva a escrever...)

Correspondido

É tão difícil nunca ser compreendido.
É tão difícil nunca estar arrependido.
É tão difícil nunca terem entendido

As profecias, ameaças,
Ou falácias do meu ser...

Foi tão difícil nunca ser correspondido,
Mas o amor chegou
E nos proclamou
Os donos desse mundo, os "micróbios do Universo"¹.

Eu preciso me apegar ao novo jeito.
Eu preciso resgatar os meus anseios
E travessuras de criança, traduzidas por lembranças
Que eu quero que existam — mais remotas que a infância.

"E o Fascismo é fascinante,
Deixa gente ignorante fascinada"².

Mas...
Acostumar-me-ei
Só pra ver o seu olhar de novo,
Acordar tão claramente,
Pra entender o Sol Nascente.

"Legislação, normas e procedimentos..."
(Novas coisas como sinergia):
Como isso me irrita!
Por mais que a educação nos enriqueça o treinamento,
Há coisas mais do que importantes que nem são tão percebidas.

(Pra completar, ainda há gente que nos mata:
São pontes que separam e delatam
E se valem de estratégias e de réplicas de afeto,
Como facas pontiagudas — como déspostas sinceros)³.

Foi tão difícil nunca ser correspondido,
Eu tento valorizar o nosso amor
Que nos proclamou ao seu Congresso:
Somos herdeiros desse mundo — os "micróbios do Universo".



NOTAS:
1. Alusão à música "Micróbio do Universo" da banda "Pão com Manteiga";
2. Música "Toda Forma de Poder". Banda "Engenheiros do Hawaii". Compositor: Humberto Gessinger;
3. Algo pouco importante que tenta destruir o meu noivado...

O frio V

Lembro-me de ter, um dia, defendido
Que o fim de alguma coisa nunca mais teria fim
E, de começos, eu riria, ao Sol de um pântano perdido
Que voltasse à minha vida e à nevasca desse um fim.

"Eu gosto do frio. Não gosto é de sentir frio"
Fora o que disseste em mais um triste caminhar
(Eu concordo).
Eu nado nesse rio de sons e pálpebra
E fios
De várias redes de contatos que induzem meu olhar.

O medo só passa a partir do momento
Em que nos damos conta de que ele é medo.

Olho por completo ao novo rastro — hemisfério
Que tu deste ao meu mundo nesse frio de tons sinceros.

"Cuida de mim enquanto não esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo"¹.

Quantas blusas eu vesti a fim de ver o teu sorriso.
Esqueço quem eu sou e também perco o meu juízo.
Essa noite foi terrível: não deu nem pra cochilar
E o frio 'tá mais preciso a cada volta do luar.

Por que o frio se decidiu em se aquecer?
Sem você é impossível...
Sem você não dá pra suportar...

Mas um besouro infalível
Nunca deixa de voar
(Mesmo que não queiram;
Mesmo que impeçam;
Ou mesmo que proíbam...)


NOTA:
1. Música "Cuida de Mim". Banda "O Teatro Mágico". Composição: Fernando Anitelli.

Funeral

Posso, amor, sair e nunca mais voltar?
Queria que houvesse um funeral ao despertar
Dos primos raios da manhã de um só dia
Inaugurado pela chuva que alivia.

Parece que esqueceste toda a vida tão sem fim.
Parece que miraste todo o ódio sempre a mim.
Só quero entender qual é o motivo dessa mágoa;
Só quero que tu largues este vício que te mata.

Qual é o problema de viver, de ser feliz?
Qual é a tristeza que contou dentro de ti?

Vive de saudade; não te esquece da verdade
Desses dias que viveste para mim.
Vence essa vaidade; aprofundo-te a verdade
Até que juntos, pois, criemos lar feliz.

Não me nego a relevar a intolerância;
Não me nego a utilizar da jactância
Desde que essa meta seja a te ver sorrir;
Desde que os alertas não me deixem mais partir.

Pensando no futuro,
Espero não morrer até que eu veja o amanhecer
De nossa glória do futuro,
Simples glória de viver...